No post de hoje, vou abordar um assunto ligado à questão das traduções de textos jornalísticos. Antes de qualquer coisa, não tenho formação em jornalismo. Ainda assim, me sinto na obrigação de tecer algumas considerações sobre esta temática. Quem acompanha o trabalho do Portal Inglês no Teclado (há 15 anos no ar, diga-se de passagem) já deve ter notado que, na grande maioria das nossas dicas de inglês, nos valemos da língua portuguesa como ferramenta de auxílio ao ensino da língua inglesa. Há várias controvérsias sobre esta metodologia – estamos carecas de saber. Ainda assim, prosseguimos com esta conduta ao longo de anos e, até o momento, não ocorreram fatos capazes de nos fazer mudar de opinião.
De todo modo, voltando ao ponto principal deste texto, registro aqui o meu descontentamento com a qualidade ou com o resultado advindo da tradução de textos jornalísticos. Muitos jornais no Brasil possuem parcerias com empresas estrangeiras. Portanto, diante da celebração de acordos, é comum você se deparar com tais textos, originalmente publicados no NY Times, em páginas conceituadas como O Globo e Infomoney.
Percebam que aqui não estou a criticar a parceria propriamente dita e muito menos a intenção oriunda dessa avença. A minha crítica limita-se à qualidade ou (como eu já disse) com o resultado que vejo, fruto de traduções de textos jornalísticos. São de muito mau gosto. Que me perdoem as pessoas que efetuam este nobre ofício de transpor informações de uma língua para outra, mas já deu. Não consigo mais me calar. Ainda que este “serviço” tenha sido efetuado por uma ferramenta, a sua conferência não está nada adequada.
Vou contextualizar e, na sequência, volto ao âmago do que classifico como de qualidade duvidosa. Estou com a minha esposa, que não fala inglês, há 24 anos. Ela sabe de todo o meu histórico com a língua inglesa. Para não ser totalmente injusto, ela compreende algumas coisas (ênfase em algumas). De toda maneira, quando estou me comunicando em inglês e ela está ao meu lado, é recorrente a necessidade dela de que eu a repasse informações em português. No entanto, ela fica agoniada, pois sempre frisa que eu tenho dificuldade para fazer isso. Já expliquei a ela inúmeras vezes que meu cérebro não precisa fazer essa transposição, pois enxerga ambas as línguas como códigos autônomos. E é esse o ponto que gostaria de ressaltar em minha fala: as línguas são códigos independentes.
Quando eu digo que as línguas são como códigos independentes, eu não quero dizer que não possa existir entre elas equivalências, correspondências e similitudes. O que quero dizer com isso é que uma ocorre independentemente da existência da outra.
A língua não é composta apenas da junção interposta de caracteres, como boa parte das pessoas pensa. A língua é como um pincel repleto de tinta colorida que passa e deixa rastros de sua ocorrência. Assim, mesmo que o pincel tenha zarpado (a manifestação da língua propriamente dita), as evidências de que ela esteve ali permanecem.
Para exemplificar o que quero dizer com o manuseio da ferramenta, vamos analisar o seguinte trecho de um texto jornalístico originalmente publicado pela Bloomberg e posteriormente publicado no jornal o Globo. Ele chama “Os novos ricos da tecnologia sofrem com a ‘síndrome da riqueza repentina’”. Eu me deparei com o referido texto no site do O Globo primeiramente e, cansado de ler o que meu olhos viam, fui atrás do texto original. Vamos analisar alguns excertos que, na visão deste articulista, são eminentemente problemáticos:
“Suas entrevistas com pessoas extraordinariamente ricas (…)”
Sinceramente, não é assim que nos expressamos, no dia a dia, em português. “Suas entrevistas” soou muito grosseiro a este leitor (crítico, reconheço). “As entrevistas dela” ou qualquer outra coisa caberia no lugar disso. Como diz uma das filhas de Gil, você poderia substituir esse trecho por outro.
“(…) a venda da empresa não é vivida (…)”
A língua inglesa é particularmente apaixonada pelo uso da voz passiva. A língua portuguesa não. Raramente alguém vive alguma coisa em português. É verdade que podemos dizer “viva a sua vida de tal forma” (o que não é voz passiva!), mas dificilmente você escuta alguém dizendo “a vida foi vivida” e muito menos “a experiência foi vivida”, “um fato foi vivido”. Persistir com este tipo de tradução é extremamente prejudicial a quem preza pelo bom uso da língua portuguesa. Isso, pois se jornais conceituados insistem em mostrar ao leitor a língua inglesa em forma de caracteres do português (frisa-se!), passam essas organizações a falsa sensação de que é comum se expressar de uma maneira que não é genuinamente a forma como os seus iguais se expressam. A língua é um dos elementos da cultura de um povo, não presta desrespeitá-la a troco de visualizações, isto é, por dinheiro. O que se tem aqui é o inglês usando a roupagem do português.
Igualmente, identifiquei o seguinte parágrafo que, em minha opinião, merecia uma nova redação:
“O podcast de Koroleva é apenas uma parte de um ecossistema crescente de conteúdos, coaches, terapeutas e comunidades que oferecem a pessoas que acumularam mais dinheiro do que jamais precisarão um espaço para falar abertamente”.
Esse parágrafo me lembra aqueles pedaços de redação do jovem que faz ENEM e que, em última análise, não dizem nada com nada (bulhufas). Parece se tratar de uma coisa muito mal escrita (ou o verbo correto aqui seria “traduzida?). Este trecho está completamente sem sentido “(…) do que jamais precisarão um espaço para falar abertamente”. Me parece se tratar de um arranjo entre sujeito, predicado e outros elementos do inglês que bugaram a ferramenta de tradução com força total. O pior: foi publicado assim mesmo.
Outro detalhe que chama a minha atenção (e que é bastante recorrente em tradução no jornalismo) é o jeito como as falas de especialistas e/ou testemunhas são tratadas.
“- Houve uma enorme mudança na forma como se conversa sobre saúde mental e bem-estar entre empreendedores – afirma Sherry Walling, psicóloga clínica especializada em fundadores de empresas”.
Por mais que se argumente se tratar do fenômeno do presente histórico (ou do presente jornalístico), em português, não é assim que escrevemos – não é assim que nos expressamos. O primeiro ponto é que, ao menos nos dias atuais, não usamos a forma no presente como o que ocorreu acima, isto é, “afirma fulano de tal”. Releia o que foi escrito e avalie se isso é genuinamente português. Não é, é inglês travestido de português. Valendo-se deste expediente, o texto fica ainda mais artificial do que já está.
Mais um deslize que percebo no texto citado – e que noto com frequência em traduções jornalísticas – é o uso de palavras em estruturas nada idiomáticas. Observe o emprego de “passado”:
“Em novembro passado, Sheery foi coautora de um guia sobre o tema (…)”.
Como assim “em novembro passado”? Não gosto de usar o termo que direi a seguir (já que é infinitamente mais recorrente no inglês), mas sou obrigado a fazê-lo: definitivamente não é assim que nos expressamos em português.
Outro exemplo de termo em português cujo uso se expandiu por influência da tradução está no trecho: ‘(…) você continua se sentindo inadequado’. Embora o termo seja aceito para descrever o sentimento de desajuste de uma pessoa, o uso excessivo nessa estrutura revela a forte influência do inglês (inadequate). Na tradição da língua portuguesa, muitas vezes preferimos termos como ‘deslocado’, ‘desajustado’ ou ‘insuficiente’. O decalque é um procedimento legítimo de tradução, mas vale a pena buscar sinônimos mais naturais ao nosso ecossistema linguístico.
Pois bem. As críticas foram tecidas e a crônica / artigo de opinião está aí. Não acredito que surtam efeito, mas vale a reflexão.